A MORADA DOS BRAVOS

A PAZ É AMBÍGUA, dissemos. Sem discutir semântica nem diferenciação entre paz a apaziguamento, que se tornou inócua, ociosa, nos nossos dias. A paz é o sossego do covarde, mas também pode ser a morada dos bravos. E é apenas nessa condição que a paz encarna o seu sentido maior, primeiro e derradeiro.

DISSEMOS QUE A PAZ, antes de ser causa, é consequência. Consequência do quê?

A PAZ SE TORNA uma causa digna quando maduramente encarada como consequência de dois outros princípios. A paz é indigna quando se fecha sobre si própria e se torna imperativo maior, a que todos os outros devem ceder. A paz é necessária, mas quando encarada como necessidade, dá oportunidade a todos os vícios, todas as fraquezas, toda corrupção. Existem muitas coisas absolutamente necessárias à vida, tais como o amor físico, a gratificação emocional, o sentimento de autoestima. Mas quando essas coisas se tornam imperativos, sob os quais a ética, as Leis de D'us e dos homens devem curvar-se, então se tornam porteira aberta a todos os vícios, fraquezas e corrupção.

A PAZ PORTANTO DEVE SER buscada e, em última análise, deve ser o próprio sentido da vida. Mas ela tem um custo, uma fórmula, uma receita, um caminho. Qualquer paz que se possa alcançar por atalhos é causa de ruína.

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 "Rabban Shimon ben Gamliel disse: O mundo perdura em virtude de três coisas – justiça, verdade e paz, como foi dito: 'praticai justiça em verdade e paz em vossos portões'. [cit. Zecharyá VIII,16]." [Pirkei Avot, I, 18)
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Esse trecho, de um dos mais famosos tratados do Talmud, chamado "Ética dos Pais" (Pirkei Avot), é invocado em nove entre dez escritos judaicos sobre o tema "paz". Pode-se dizer tranquilamente que se trata de um lugar-comum. Tão comum que muitas vezes deixa de receber a atenção que merece.

Por que razão o ilustre neto do ilustríssimo Rav Gamaliel (mencionado de forma pouco criterosa, no NT) estabelece a paz como arrimo derradeiro desse tripé de continuidade do nosso mundo? Sim, ele afirma que este mundo que habitamos perdura -- é importante sublinhar o sentido de duração através do tempo -- sobre três princípios: primeiro - "justiça"; segundo "verdade"; terceiro - "paz".

Logo no começo desse primeiro capítulo há uma assertiva semelhante, no sentido de situar o mundo como alicerçado (não mais "perdurando", mas estabelecido) em igualmente três pilares: a Lei-Ensinamento Divina, o Serviço (do Templo e, por extensão de sentido, o servir ao Criador, principalmente por meio da prece) e a dádiva desinteressada - caridade, no sentido material, pecuniário; por extensão, ajuda, auxílio, interesse em mitigar o sofrimento alheio sem esperar retorno. Esses três sustentáculos referem o que já é, o que está, o estabelecido e acabado -- sejam preceitos ou ensinos, diretivas de serviço ou atos de dedicação. Ao contrário, o trinômio que encerra o capítulo alude a abstrações -- justiça, verdade, paz.

A palavra para "justiça", aqui, não é um conceito, mas se refere à aplicação de um conceito. É a justiça dos tribunais, é o juízo, o julgamento, o estado de direito.

Muito bem, eu pergunto: há neste mundo justiça sem mácula, perfeita? Há verdade no sentido último, indiscutível? Há paz completa ou, no máximo, a não-beligerância, a calma que pode ser despedaçada num segundo?

Justiça, verdade e paz são antes procuras. Para proporcionar continuidade ao mundo, precisam ser absolutamente autênticas. A procura da justiça precisa rechaçar qualquer interesse particular, de um ou de muitos, que possa obstruir o sentido mais puro da JUSTEZA. A procura da verdade exige disposição a verdades incômodas, o nomadismo intelectual do que abdicou de zonas mentais de conforto. Esses dois imperativos se completam e é da sua "insustentável leveza" que provém a paz duradoura.

A paz, portanto, conforme estabelecida nos Pirkei Avot, é antes a procura da paz, tendo por pressupostos a procura da justiça e a procura da verdade.

A verdade está situada no cerne da questão. Se a procura da justiça é o elemento propulsor, é na procura da verdade que esse elemento vai encontrar amparo. E sobre esse binômio que se realimenta em reciprocidade se pode estabelecer uma busca autêntica de paz.

Qualquer coisa fora disso é apaziguamento, aquele "refúgio do covarde" a que nos referimos, na digressão que nos antecede. A morada dos bravos é a paz que se levanta, como a chama sobre o pavio, a partir da serena procura da justiça que impulsiona a corajosa busca da verdade, ambas necessariamente provisórias, por se ligarem inevitavelmente a percepções comprometidas com as vicissitudes da condição humana, em tempo e espaço. A procura da justiça e a procura da verdade são inevitavelmente sujeitas ao momento histórico, ao estado dos saberes, ao particularismo da cultura, da civilização. O trinômio justiça<->verdade<->paz é como uma seta. A mão forte que tensiona o arco se acha imbricada nas coisas desta vida. O alvo que a linha retesada busca, no entanto, se situa além, é da Eternidade.

Não é preciso dizer que essa procura é tão necessária quanto necessariamente precários, por melhor que tenha sido o esforço, os seus resultados.

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[C] 2024 - Miguel Fernandes

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