O sossego do covarde

 A COVARDIA MORAL tem lá os seus refúgios, as suas racionalizações, os seus oásis, pousos de sossego.

Em certos meios, alguns tomaram justificado medo de proferir ou -- pior -- defender o nome "ISRAEL". Essa pusilanimidade vem costumeiramente envolta no algodão de um utilitarismo tático: é melhor falar de "paz" do que "Israel". E, desde que, no meu campo semântico, "Israel" e "paz" são quase sinônimos, não vejo conflito algum. Assim se safa o covarde.

O covarde sabe, contudo, que no campo semântico da maioria de seus interlocutores, "Israel" é bem o antônimo de "paz". Referir-se à paz, sabe o covarde, vai longe da alusão positiva a Israel, bem a contrário. Mas -- Deixa estar! -- pensa ele. Deixa que a ambiguidade faça o seu sujo trabalho, e que me entenda cada um do jeito como melhor lhe parecer.

Não, o covarde não quer "prejudicar os judeus" articulando o palavrão "Israel". Não! Imagina se nos explodem? Imagina se um socialista mais afoito vai e lincha um guri de kipá? Imagina a turma do Allah Wakbarrr! Não, esses são nossos "parceiros para a paz". Nada de Israel, a palavra proibida, o nome da infâmia, o tabu encoberto sob a ambiguidade da palavra "paz", esse coringa no meu baralho viciado.

O que o covarde não quer é ser explodido, ele mesmo; linchado, ele mesmo. Demitido, ele mesmo, por defender o indefensável. Não quer ver seus filhos acusados de nazistas por defender Israel, o país que o mundo árabe e a falecida união soviética igualaram à Alemanha nazista. O covarde não quer que Israel respingue na sua reputação. Tem negócios a concluir com seus "parceiros para a paz"; acalenta ambições políticas, inviáveis a partir do som maldito dessas letras de fogo: "Israel".

Trocando "Israel" pela "paz", por "contra o terror", "pela diversidade" ou que diabo for, não quer mais o covarde do que safar-se a si próprio, defender-se e proteger os próprios interesses, cuidar do seu futuro.

Eis assim abandonado, no chão da rua, como um osso roído por cachorros, a palavra "Israel", que o covarde evita. Esse osso seco e podre cujo fedor ninguém mais se atreveria a reinvindicar.

Ou quase ninguém.

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Faz mais de dez anos, passava em frente à Câmara Municipal do Rio, reduto do brizolismo, petismo outras concubinas do judeófobo, seja árabe ou russo (em alguns casos, até hitlerista). Na escadaria da Gaiola Dourada, como é carinhosamente chamada a nossa Câmara, um grupo grande de jovens. Afrodescendentes, na maioria. Modestamente vestidos, a maioria. Suburbaníssimos, a maioria. Esse grupo cantava. E empunhava uma enorme. Enorme. ENORME

EEEEENOOOOORRRRMEEEE

faixa onde se lia uma única palavra: Israel.

Não, não eram os principais interessados. Apenas envangélicos pobres dando a tapa a cara, enquanto outras, melhor hidratadas, escanhoadas e perfumadas protegiam-se adequadamente sob o temo "paz".

Foi quando entendi que a paz, a própria paz pode chafurdar na infâmia. Que a paz pode ser o sossego do covarde.


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Miguel Fernandes

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