"Para que serve um recém-nascido?"

ISTO TERIA RESPONDIDO o cientista inglês Michael Faraday, nos idos da Era Vitoriana, a um que lhe inquiriu sobre a utilidade de uma interessante, embora aparentemente inútil, descoberta sobre eletricidade. "Muito bonito, mas para que serve? --- E para que serve um recém-nascido?"

A PRINCIPAL UTILIDADE DOS RECÉM-NASCIDOS, hoje, é morrer. Vivos, não servem. Mortos passam a ser "vítimas dos judeus". O papa o apregoa, aos prantos. Os terroristas do Hamas o gritam: "os judeus primeiro mataram seus próprios bebês, para nos acusar, e agora alegam vingança matando os nossos" Os socialistas lhes fazem eco: "Israel genocida, mata bebês". Imagine, um socialista, cuja especialidade é matar, de preferência outros socialistas avessos à Linha do Partido.

O gesto do papa é dramático; reencena a tradição do baixo clero sobre a criança cristã "sacrificada por judeus para usar seu sangue em ritos diabólicos". Não adianta desculpar os papas; os judeus não conviviam com papas, mas com o baixo clero, que se deliciava com essas fantasias, propícias a outras: estupro de judias e roubo. A acusação eco a do deicídio. O clero, portanto, ainda segue o rito, quando o caso é acusar judeu de matar neném -- um Filho do Homem. Tradição tão milenar não iria morrer nas poucas décadas, desde o Vaticano II.

Para o Hamas, um recém-nascido serve de escudo. Por trás do neném, um barbado senta o dedo no AK-47. O judeu detona ambos; não lhe resta alternativa. Ei-lo pois, assassino de tudo quanto é bebê. Os próprios (na versão do Hamas, que o Papa ignora), na pranto do Papa, herdeiro de longa tradição judeófoba, e na chorumela do socialista especializado em matar.

Havia algo errado com um Francisco que demandou o corte de oito imensas árvores em sua visita à Tijuca. Havia algo errado com um Francisco que orava a poucos metros de um drogado, nu, introduzindo crucifixos no próprio ânus. Algo errado com um Francisco expulso de Ramalah pelo grito de um muezin, em plena missa, mas que não teve vergonha de, na fuga, se deter teatralmente junto à cerca de segurança, com aquela tão vigarista carinha de "lamentável o que esses judeus fazem na Terra Santa!"

Nada mudou.


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Miguel Fernandes

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