Para além do Front: notas sobre o que não sei
1. NADA (NEM NINGUÉM) será como antes.
Desde os anos escolares, sentia o mundo dividido, quietamente polarizado. Os conflitos estavam postos, mas em potência, não em ato, ainda. Passei toda a juventude sentindo distenderem-se dolorosamente, em minha hipersensibilidade, enquanto o mundo, as coisas, pessoas, instâncias permaneciam aparentemente imóveis ao meu redor. Desesperador, era a palavra. Por baixo das amizades eu sentia mover-se a promessa de um antagonismo feroz a se abrir em feridas, algum dia. Ouvia com assombro opiniões cujas últimas consequências me pareciam obviamente aterradoras, mas expostas com a tranquilidade dos que não o pressentiam.
E foi mudando. Eu fui mudando. Vi se aprofundarem abismos que poderiam ser amenizados com um pouco da boa e velha polidez, vi um mundo cansado da boa e velha polidez. Um mundo novamente satisfeito na ferocidade, certa ou errada. Vi, solitário, que o correto exigia, tanto quanto a correção intelectual, um conduzir com dignidade e correção. E vi um mundo cada vez mais vil, mais indigno, mais cheio de razões: e cada vez menos correto. Os abismos se abriam, definitivos. Exigiam rupturas, a coragem das rupturas, a humildade das rupturas. Não me foi difícil; desde cedo fui deixando para trás, por força da vida. Aprendendo a abrir mão.
2. DESDE 7 DE OUTUBRO algo se quebrou, partiu-se, numa esfera muito delicada, muito sutil, muito difícil de ser objetivamente percebida. Cada um viveu essa quebra do seu jeito. E senti o que jamais sentira: uma mudança palpável nas coisas impalpáveis a refletir-se brutalmente nas coisas e pessoas. Ouvi, penalizado, silêncios cobertos de ignomínia, silêncios definitivos. Sem raiva, como quem vê morrerem as pessoas, por dentro. Olho em torno e vejo irremediavelmente morta a maioria dos que amei. Morta e sorridente, morta e planejando a vida, futuros, conquistas. Peço por eles e não escuto mais que o pesado silêncio do médico cansado, que já cobriu com a mortalha os restos ainda quentes do seu fracasso.
A impressão é de que o mundo foi silenciosamente julgado. O amanhã é mera decorrência. Na vida, imaginei vir a sentir muitas coisas, menos isto que não tem nome.
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Miguel Fernandes
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Este escrevinhador se reserva o direito de detonar comensafada safados. Você é suficientemente grandidnho para ponderar com sensatez e não me vir com besteiras do tipo "criancinha coitada" etc. Não me irrite.