Antissemitismo e ignorância
[Ao Gus Erlichman]
PASSO POR CIMA das conceituações de Antissemitismo em uso. Todas me parecem diluir em palavrório inútil a essência de um ódio muito à feição da "liberdade", conforme a definiu poeticamente Cecília Meireles: "Liberdade, que [...] não há ninguém que explique e ninguém que não entenda".
Antissemitismo é o ódio ao judeu, "que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda", esta última qualidade -- o entendimento que dispensa explicação -- decorrente de ser o antissemitismo basicamente um produto do Ocidente. Eu sei, você está pensando no quanto nos preocupamos com o antissemitismo. Mas só o canceroso se preocupa com o câncer; a atenção que damos ao estudo do ódio aos judeus decorre da herança desse ódio, seja na condição de portadores (ativos ou não, conscientes ou não), seja na de alvos.
E basta, pois quero discutir o quanto de ignorância há no antissemita. Caio no dilema do ovo-galinha. O antissemta ignora fatos ou escolhe um ignorar canalha? Não conheço os esquimós. Daí, porém, a projetar nele uma barbárie minha vai grande diferença. Se o desconhecido me serve de tela em branco onde posso rascunhar taras, então devo preservar minha ignorância a seu respeito. Só ela me permite odiá-lo confortavelmente. Se um esquimó vem morar na vizinhaça, ou eu o observo e experimento o desconforto de não ver nele a malignidade que posso carregar comigo ou eu caio numa esquizofrenia e teimo em ver nele o que desejo, não o que ele é.
Essa discussão não fecha, ou não quero fechá-la. Adianto-me: o antissemita filho da ignorância não é um canalha, mas pessoa hipersensível à injustiça e apressado no julgamento. É mentalidade talhada para cair na armadilha antissemita, odiar o tradicionalmente odiável. Falo do que sei: aos 12 anos, fui antissemita, por uma semana, no primeiro estudo do Evangelho segundo João, obrigação escolar. Salvaram-me os judeus de carne e osso, especialmente um tipo grandalhão chamado Lazaroff, mascate de roupas, paciente com nossa eterna indimplência, fiel nos doces que nos trazia.
Fui ignorante, sou sensível à injustiça e temerário no julgar. Vivi sete dias desse ódio, até rever o Lazaroff.
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Miguel Fernandes
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Este escrevinhador se reserva o direito de detonar comensafada safados. Você é suficientemente grandidnho para ponderar com sensatez e não me vir com besteiras do tipo "criancinha coitada" etc. Não me irrite.